Supermercados: O Preço da Inacessibilidade

Por: Lêda Lucia Spelta.
(Abril 2007)

Os Supermercados Estão Comendo Mosca!

Não sei quantas pessoas, hoje em dia, ainda sabem o que significa esta expressão. Para quem não a conhece, quando minha avó dizia que alguém estava "comendo mosca", queria dizer que essa pessoa estava deixando passar uma boa oportunidade, ou deixando-se passar para trás. Pois acho que ela diria exatamente isto dos supermercados: "estão comendo mosca".

Aqui em casa o queijo está no fim e já acabaram os guardanapos, o champignon, o damasco, as azeitonas, o suco de caju... Está na hora de fazer supermercado: fazer a lista, arranjar tempo, pegar o carro, ter paciência com o trânsito, arranjar um bom lugar no estacionamento, pegar um carrinho, manobrar o carrinho pelos corredores, procurar os produtos, verificar as embalagens, o prazo de validade, conferir a lista, enfrentar a fila do caixa, lembrar onde está o carro, colocar as compras nele, torcer para ter acabado o engarrafamento, descarregar as compras e levá-las para dentro de casa; mais ou menos umas duas horas.

Nada disso... Aqui em casa é diferente: não tenho que enfrentar toda essa chatice, infelizmente, pois sou cega. Ainda bem que existe essa maravilha que é a Internet: é só ligar o computador, entrar no site do supermercado preferido, aproveitar as promoções, passear pelas seções virtuais, escolher os produtos, clicar para colocá-los no carrinho, fechar a compra e pronto!

Pena que, no meu caso, não é bem assim...

Outro dia ouvi a Lu, minha colega de trabalho, dizer que iria aproveitar o horário do almoço para fazer umas comprinhas pela internet. Ela entrou no mesmo supermercado que utilizo e comprou, em quinze minutos, a mesma quantidade de itens que eu demoro duas horas para comprar.

Caramba! Será que sou tão lerda assim? Não, infelizmente não é um problema meu, é de todas as pessoas cegas. Os sites dos supermercados são totalmente inadequados, não só para cegos, mas também para pessoas idosas ou que têm dificuldade na utilização do mouse. Para começar, as páginas são muito carregadas de informação e poluídas visualmente. Gastamos muito tempo, lendo uma tonelada de coisas que não nos interessam, até encontrar a informação ou os produtos que desejamos, ou constatar que, simplesmente, eles não estão lá. As imagens freqüentemente carecem de descrição em texto. As dicas e promoções aparecem, inadvertidamente, no meio da informação... E, na hora de fechar a compra, quem não pode usar o mouse tem que fazer alguns malabarismos para preencher todos os campos solicitados nos formulários. Solicitados, para quem? Devido a erros na codificação da página, muitas vezes o texto da solicitação não está associado ao campo onde devemos entrar com os dados. E temos ainda um problema que, pelo menos, é bastante democrático, pois não atinge somente a este grupo de usuários: as páginas são pesadas e, quando a conexão é lenta, demoram muito para baixar.

Estes são apenas alguns dos problemas que dificultam ou impedem o acesso de muitas pessoas. Mas o grande paradoxo é que são justamente estas as pessoas que têm as maiores dificuldades para fazer supermercado pelos meios tradicionais, ou seja, seriam estes os clientes mais fiéis e assíduos dos sites de supermercado. Conseqüentemente, se os sites de vendas fossem criados levando em conta todos os clientes potenciais, eles seriam muito mais amigáveis e agradáveis.

Portanto, se a minha avó ainda vivesse hoje e dissesse que os supermercados estão "comendo mosca", não estaria coberta de razão?

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