Quem precisa de acessibilidade na Web?

Por: Horácio Soares.
(Março 2010)

Um dos principais mitos que envolvem o desenvolvimento de sites acessíveis é que eles só atendem pessoas com deficiência visual.

Não podemos negar que essas pessoas são as que mais precisam de acessibilidade, pois quando as barreiras são grandes, não conseguem ter acesso às informações e, na maioria das vezes, não possuem outra maneira de conseguir o que procuram (Spelta, 2007).

Por exemplo, quando um usuário cego tenta comprar um produto pela Internet, é provável que em determinado momento ele tenha que cumprir uma exigência do sistema e precise preencher um campo com números e letras em caixa alta e baixa que são disponibilizadas no site através de imagens distorcidas. Quando essas imagens não têm a acessibilidade adequada ou não oferecem uma solução alternativa acessível ao Captcha (nome desta técnica), o programa leitor de telas (software utilizado pelas pessoas com deficiência visual para acessar o computador) não é capaz de obter as informações contidas nas imagens e os usuários não podem finalizar a compra.

O decreto de lei 5296, regulamentado no final de 2004, nutriu ainda mais esse mito, pois obriga que os sites de administração pública no Brasil tornem seus conteúdos acessíveis apenas para pessoas com deficiência visual.

Porém em agosto de 2009, foi assinado o decreto n° 6.949 que promulgou a “Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo”, que determina que todos os sites devem ser acessíveis para todas as deficiências, mas infelizmente essa lei ainda é pouco conhecida e aplicada.

Além da cegueira, outras deficiências visuais precisam de acessibilidade na Web, como, por exemplo, nos cenários abaixo:

  • Usuário com baixa visão utiliza um software ampliador de tela para fazer uma pesquisa na Internet sobre a crise econômica mundial.
  • Usuário com problemas visuais moderados precisa aumentar o tamanho da fonte do texto para ler um jornal na Web.
  • Um programador daltônico, ao testar um programa Web, precisa alterar o contraste para achar erros em aplicações JavaScript.

Então a acessibilidade na Web serve mesmo apenas para as pessoas com deficiência visual, certo? Errado! Apesar do mito ainda ser forte, outras deficiências precisam de acessibilidade na Web, como pessoas com deficiência motora, auditiva, cognitiva e de linguagem, e distúrbios do sistema nervoso (Dias, 2007). Vejamos mais alguns cenários em que a acessibilidade é capital:

  • Usuário com paralisia cerebral e grandes dificuldades motoras, utiliza apenas o teclado para navegar pela internet e atualizar seu perfil no Orkut.
  • Deficiente motor, com um mouse adaptado, tenta fazer compras em um supermercado virtual.
  • Tetraplégico, utilizando apenas um ponteiro na cabeça para acessar o teclado, procura por informações sobre células tronco no Google.
  • Usuário destro com tendinite precisa fazer uma pesquisa na Web para sua faculdade e utiliza com dificuldades o mouse com mão esquerda.
  • Um jovem com problemas cognitivos procura na Web por informações sobre seu esporte predileto.
  • Profissional com deficiência auditiva realiza um treinamento à distância onde precisa assistir a vídeos.

Ok, então acessibilidade na Web serve para pessoas que possuem alguma deficiência, certo? Mais uma vez está errado! Além das pessoas com deficiências, temporárias ou não, dependendo do contexto de uso, todos nós poderemos ser usuários de acessibilidade. Para ilustrar um pouco melhor esse conceito, abaixo são apresentados mais alguns cenários:

  • Casal de idosos, já com alguma dificuldade em ler textos e que têm pouca experiência em Internet, tentam comprar passagens aéreas em promoção pela Web.
  • Procurando melhorar a sua experiência ao acessar a internet pelo pequeno monitor de seu Netbook, um homem com 50 anos aumenta a fonte dos textos utilizando seu navegador.
  • Ao procurar informações sobre pós-graduação, uma jovem sente dificuldades em encontrar o que procura no site de uma universidade que possui uma a arquitetura de informação focada na estrutura organizacional da instituição.
  • Uma criança, ainda em fase de desenvolvimento da linguagem, procura por um jogo na Web.
  • Usuário acessa pela primeira vez o sistema de Webmail de seu provedor. A interface foi projetada e testada apenas por engenheiros.
  • Com conexão baixa (via linha discada), usuário tenta comprar um eletrodoméstico em um site de comércio eletrônico.
  • Um usuário de língua portuguesa, sem fluência no espanhol, procura informações sobre a cidade de Buenos Aires em um site de língua espanhola.
  • Usuário em movimento busca os horários do cinema em seu smartphone.
  • Utilizando um smartphone, usuário tem dificuldades em encontrar informações em um site que não foi projetado para ser acessado via mobile.
  • Ao entrar no site de uma agência de publicidade, um executivo não consegue acessar seu conteúdo, pois como o site foi todo desenvolvido na última versão do flash, o navegador precisa ter instalado um plugin proprietário.
  • Robôs de busca como o “bilionário cego”, o Google, que só indexam textos, procuram por sites com informações sobre o Iphone 3GS.

Esses são apenas alguns cenários possíveis, mas se após ler esse artigo você continuar achando que acessibilidade só serve para pessoas com deficiência, tenho somente duas coisas a dizer:

  1. Não deixe de nos escrever enviando o seu comentário.
  2. Todos nós, dentro de algum contexto, atual ou futuro, seremos usuários diretos de acessibilidade Web.

Referências:
DIAS, C. Usabilidade na Web: criando portais mais acessíveis, 2ª edição, Rio de Janeiro, Alta Books, 2007.
SPELTA, L. L. Artigo: Acessibilidade Web: 7 mitos e um equívoco, 2007.





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